Golpe do motoboy

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O telefone toca. Quem está do outro lado se identifica como funcionário do banco e informa que seu cartão foi clonado. Para resolver, um motoboy vai até sua casa buscar o cartão e você só precisa digitar a senha antes da entrega para "cancelar as transações suspeitas". Parece urgente, mas é a porta de entrada para enganar vítimas.

Esse é o golpe do motoboy, uma fraude antiga, mas que continua funcionando muito bem. E em 2026, com o aumento de vazamentos de dados de grandes plataformas, ele ficou ainda mais sofisticado: os criminosos já sabem seu nome, seu endereço e até detalhes do seu último pedido de delivery antes da ligação.

O que é o golpe do motoboy?

O golpe do motoboy é uma fraude em que criminosos se passam por funcionários de bancos ou instituições financeiras para convencer a vítima a entregar o cartão físico e, em muitos casos, também a senha. O nome vem do método de retirada: após a ligação, um comparsa vai até a residência da vítima para buscar o cartão pessoalmente.

Como o golpe funciona na prática?

O roteiro clássico do golpe do motoboy segue um padrão reconhecível, dividido em etapas.

A ligação falsa do banco

O golpista liga para a vítima usando um número que pode parecer o do banco e se apresenta como atendente do setor de segurança ou antifraude. A abordagem é sempre a mesma: 

Seu cartão foi clonado, há transações suspeitas na sua conta e é preciso agir rápido!

Para criar credibilidade, ele pode mencionar o nome do banco corretamente, citar o número da agência ou até repetir informações básicas como nome completo; dados que podem ter sido obtidos em vazamentos de dados anteriores ou redes sociais.

O pedido de senha e cartão

Com a vítima já convencida da urgência, o golpista instrui a pessoa a digitar a senha no telefone para "confirmar a identidade" ou "bloquear o cartão comprometido". Em seguida, informa que um motoboy passará para retirar o cartão antigo e entregar um novo.

Nenhum banco faz isso. Instituições financeiras nunca enviam pessoas para buscar cartões e nunca solicitam senhas por telefone.

A chegada do comparsa

O segundo integrante do golpe aparece na porta da vítima, às vezes com colete, mochila de delivery ou até um envelope com aparência oficial. Recolhe o cartão, que continua ativo e desaparece. Com o cartão físico e a senha já fornecida por telefone, as transações acontecem rapidamente.

Vazamento de dados do iFood: Por que intensificou o golpe do motoboy?

Em maio de 2026, o iFood confirmou um vazamento de dados que atingiu cerca de 1,2 milhão de usuários. As informações expostas incluíam nome completo e CPF, dados suficientes para que criminosos construam abordagens muito mais convincentes.

Com essas informações em mãos, o golpista não precisa mais adivinhar. Ele já sabe o nome da vítima, conhece o endereço cadastrado na plataforma e pode simular familiaridade com detalhes do pedido. Isso elimina a principal defesa que a maioria das pessoas usa: a desconfiança diante de alguém que não sabe com quem está falando.

A fraude passou a funcionar também em uma variante do golpe do motoboy: o criminoso chega à porta fingindo ser entregador de um pedido real, conhece detalhes suficientes para parecer legítimo e pede que o pagamento seja feito na maquininha fora do aplicativo, sem registro. Quem paga fora do app não tem cobertura da plataforma em caso de problema.

O banco é responsável se você cair no golpe?

A resposta depende das circunstâncias, mas a orientação jurídica predominante é favorável ao consumidor. A Súmula 479 do STJ estabelece que instituições financeiras respondem objetivamente pelos danos causados por fraudes e delitos praticados por terceiros no âmbito de operações bancárias. Isso inclui o golpe do motoboy.

Em novembro de 2024, o próprio STJ publicou uma Pesquisa Pronta específica sobre o tema, consolidando o entendimento de que a responsabilidade da instituição financeira pelo golpe do motoboy é objetiva, ou seja, independe de culpa comprovada do banco.

Na prática: registrar boletim de ocorrência imediatamente, reunir todas as provas da interação com o golpista e notificar o banco formalmente aumentam significativamente as chances de ressarcimento.

Quais sinais de alerta para identificar o golpe do motoboy?

O golpe do motoboy tem padrões claros. Desconfie se qualquer um destes elementos aparecer numa ligação ou na sua porta:

  • O contato vem de alguém que diz ser do banco e menciona clonagem, fraude ou transação suspeita com urgência
  • Pedem que você digite a senha no telefone para "confirmar identidade" ou "bloquear o cartão"
  • Informam que um motoboy vai até sua casa buscar o cartão físico
  • Um entregador aparece pedindo pagamento fora do aplicativo, na maquininha dele
  • O entregador solicita que você entregue o cartão para "passar" e devolve depois
  • Há pressão de tempo para agir rápido, sem checar nada

Como se proteger do golpe do motoboy?

A proteção começa com uma regra simples: nenhum banco envia motoboy para buscar cartão. Nunca. Essa informação sozinha já elimina o golpe clássico. Se alguém ligar dizendo que isso vai acontecer, desligue e ligue diretamente para o número oficial do banco no verso do seu cartão.

No caso de delivery, nunca pague fora do aplicativo. Todos os pagamentos de pedidos feitos pelo iFood, Rappi ou qualquer outra plataforma devem ser processados dentro do app, antes ou durante o pedido. Entregador que chega pedindo pagamento na maquininha ou em dinheiro fora do fluxo normal não está seguindo o processo correto, confirme o pedido no app antes de abrir a porta.

Não forneça sua senha a ninguém por telefone, WhatsApp ou presencialmente. Bancos não solicitam senhas por esses canais em nenhuma situação, inclusive em casos de suposta fraude ou bloqueio de cartão.

Se seus dados fazem parte de algum vazamento recente, incluindo o do iFood, monitore seu CPF para identificar movimentações ou cadastros indevidos. Quanto antes uma irregularidade é identificada, mais fácil é agir.

Conclusão

O golpe do motoboy funciona porque imita situações de urgência legítima e, com dados vazados, passou a chegar com detalhes reais que reduzem a desconfiança inicial. Mas o padrão continua o mesmo: pressão de tempo, pedido de senha por telefone e alguém na porta pedindo o cartão.

Nenhum banco opera dessa forma. Verificar diretamente pelo número oficial do cartão antes de agir, nunca pagar fora do aplicativo de delivery e não entregar o cartão a ninguém são os três hábitos que tornam esse golpe inviável.

Perguntas frequentes

Em muitos casos, pode haver direito ao ressarcimento. A orientação é registrar boletim de ocorrência, reunir provas e comunicar o banco imediatamente. Um advogado pode avaliar as chances de sucesso conforme o caso.
[/item][item title="Como saber se a ligação que recebi é mesmo do banco?"]Desligue e ligue para o número oficial do banco, disponível no cartão ou no site. Nunca confie apenas no número que fez a chamada.
[/item][item title="O entregador pode pedir pagamento na maquininha?"]Não, se o pedido já foi pago pelo aplicativo. Cobranças fora da plataforma são um forte sinal de golpe.
[/item][item title="Meus dados vazaram no iFood. Posso ser alvo do golpe do motoboy?"]O vazamento pode facilitar abordagens mais convincentes pelos criminosos. Redobre a atenção com ligações que usam seus dados pessoais para ganhar credibilidade.
[/item][item title="O que fazer imediatamente se cair no golpe?"]Bloqueie o cartão, avise o banco, registre um boletim de ocorrência e guarde todas as provas, como mensagens, ligações e comprovantes. Isso ajuda no pedido de ressarcimento e na investigação.

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Escrito por:

Mariana Silva
Redatora

Mariana escreve com sensibilidade e pensamento crítico. Cursa Publicidade e Propaganda e fala sobre segurança digital de forma clara e acessível, transformando temas técnicos em informação útil para o dia a dia. Amante de livros de romance e cinema, acredita no poder das palavras para transformar o mundo.