Falhas básicas causam 45% dos ataques hackers no Brasil
Escrito por Mariana Silva
AtualizadoQual é a principal porta de entrada dos ataques digitais no Brasil? Não é uma vulnerabilidade técnica sofisticada nem uma falha obscura do sistema. São senhas fracas, configurações inadequadas e credenciais entregues por clique em phishing, erros que qualquer pessoa pode cometer e que qualquer pessoa pode aprender a evitar.
Esse é o retrato que emerge do Panorama do Risco Cibernético no Brasil 2026, estudo da consultoria Vultus baseado na análise de 132 organizações em 11 setores da economia. O levantamento mostra que 45,2% dos ataques começam por falhas básicas de software, configuração ou identidade, e que outros 26,2% envolvem o uso de credenciais válidas obtidas por vazamentos ou phishing. Juntos, esses dois vetores explicam mais de 70% das invasões registradas no período.
O que o estudo revela sobre os ataques no Brasil?
O dado mais revelador do relatório não é o percentual de ataques, e sim a trajetória. A probabilidade de um ataque hacker bem-sucedido cresceu 3,7% no último ano, mesmo com o nível de segurança das organizações evoluindo 5,6%. O resultado prático foi uma redução de apenas 2,8% no risco total, um número baixo diante do volume investido em proteção.
"Enquanto o mercado discute IA, computação quântica e investe como nunca em tecnologia e segurança, os atacantes também nunca tiveram tanto sucesso. Na corrida pelo novo, muitas empresas ainda falham no básico e repetem erros já vistos diversas vezes", afirma Alexandre Brum, CEO da Vultus.
O investimento em segurança avançada não substitui o controle dos fundamentos. E os fundamentos, no caso dos ataques mais frequentes, são os mesmos que qualquer usuário enfrenta no dia a dia.
Quais são as falhas que mais abrem caminho para ataques?
O estudo identifica padrões claros nos vetores de entrada mais usados pelos criminosos. Conhecer cada um deles é o primeiro passo para não fazer parte da estatística:
Senhas fracas e credenciais vazadas
Segundo o levantamento, 35,7% dos ataques envolvem senhas fracas, e 21,4% utilizam credenciais que já foram vazadas em outros serviços. Isso significa que uma senha usada em uma plataforma que sofreu um vazamento há dois anos pode estar sendo testada hoje na sua conta de banco, e-mail ou serviço de compras.
Quando a mesma senha é cadastrada em múltiplos serviços, um único vazamento transforma-se em uma vulnerabilidade que alcança todos eles. A lógica do ataque é simples: o criminoso obtém uma combinação conhecida e a testa em diferentes plataformas até encontrar onde ela ainda funciona.
Falta de autenticação em dois fatores
O relatório mostra que 38,1% dos ambientes em nuvem analisados não usam autenticação em dois fatores (2FA). Sem essa camada adicional, uma senha obtida por qualquer meio é suficiente para acessar a conta.
Com 2FA ativo, mesmo que o criminoso tenha a senha correta, ele ainda precisa do segundo fator, que normalmente está vinculado ao dispositivo físico do usuário e expira em segundos. Esse detalhe muda completamente a equação de acesso: a senha deixa de ser a única barreira.
Phishing e engenharia social
Em mais de 80 mil interações simuladas pelo estudo, a cada 34 usuários que abriram um email fraudulento, 3 forneceram credenciais válidas. Entre os que clicaram no link, 51% acabaram entregando suas informações de acesso.
O phishing continua sendo o método mais eficiente de captura de credenciais porque depende de um comportamento humano previsível: a tendência de confiar em comunicações que parecem legítimas. E-mails que imitam bancos, serviços de streaming ou plataformas de compras induzem o usuário a digitar login e senha em formulários controlados pelo atacante.
Em ataques com phishing, 51% dos usuários que clicaram no link entregaram suas credenciais. A senha mais forte não resiste a ser digitada no lugar errado.
Por que as empresas que guardam seus dados também importam para você?
A maior parte dos dados que um criminoso precisa para acessar suas contas não vem diretamente de você. Vem de empresas que guardam suas informações e que, por falhas internas, divulgam esses dados em vazamentos.
Os setores com maior índice de risco de invasão no levantamento da Vultus são exatamente aqueles que acumulam grandes volumes de dados pessoais e financeiros de consumidores:
- Serviços: índice de risco 8,21
- Tecnologia: 8,12
- Saúde: 7,96
- Financeiro: 7,86
- Varejo: 7,54
Quando uma dessas organizações é invadida por falhas básicas de configuração ou senhas fracas de colaboradores, os dados que vazam incluem seus emails, CPF, telefone e, em alguns casos, informações financeiras. Essas informações alimentam novos ataques direcionados a você como consumidor, mesmo que você nunca tenha cometido nenhum erro.
Outro ponto que o estudo ressalta reforça esse risco: 23,8% dos ataques bem-sucedidos obtiveram acesso a VPNs corporativas sem qualquer informação prévia sobre os sistemas. Isso significa que ambientes internos de empresas ficaram acessíveis para quem não deveria ter entrada, com os dados de clientes dentro.
O problema de resposta agrava o cenário. Apenas 23% das organizações analisadas possuem processos estruturados para manter a operação após um incidente, e mesmo entre essas, muitos planos estão desatualizados. As empresas conseguem detectar as ameaças, mas nem todas estão preparadas para conter o impacto quando o ataque acontece.
O que você pode fazer para fechar essas brechas?
As falhas mais frequentes nos ataques são também as mais controláveis do seu lado. Você não precisa depender de nenhum sistema corporativo para corrigir os pontos críticos da sua própria segurança digital. As ações abaixo cobrem os principais vetores identificados no estudo:
- Crie senhas únicas para cada serviço: reutilizar senhas transforma um único vazamento em uma vulnerabilidade que alcança todas as plataformas onde você usou a mesma combinação. Gerenciadores de senhas facilitam a criação e o armazenamento de senhas distintas sem a necessidade de memorizar todas.
- Ative a autenticação multifator em tudo que oferecer a opção: com 2FA ativo, uma senha roubada não é suficiente para acessar sua conta. O segundo fator, geralmente um código temporário no seu celular, interrompe o acesso mesmo quando a senha está comprometida.
- Verifique o remetente antes de clicar em qualquer link: e-mails que criam urgência, pedem dados pessoais ou redirecionam para um site externo merecem verificação antes de qualquer ação. Acesse os serviços diretamente pelo navegador, sem usar o link recebido na mensagem.
- Verifique se suas credenciais já foram vazadas: ferramentas gratuitas como o Have I Been Pwned permitem checar se o seu email apareceu em algum vazamento conhecido. Se aparecer, troque a senha naquele serviço e em qualquer outro onde você usou a mesma combinação.
- Monitore seus dados com regularidade: o monitoramento de dados pessoais ajuda a identificar o uso indevido das suas informações pessoais antes que resulte em roubo de identidade ou acesso não autorizado a contas e serviços.
Conclusão
O estudo deixa uma mensagem clara: a maior parte dos ataques digitais no Brasil não começa por sofisticação técnica, começa por descuido no básico. Senhas fracas, ausência de 2FA e cliques em phishing são os vetores mais comuns e, ao mesmo tempo, os mais fáceis de controlar.
Você não precisa entender de cibersegurança para fechar as brechas que respondem por quase metade dos ataques. Senhas únicas, segundo fator de autenticação ativo e atenção antes de clicar já colocam você em uma posição muito melhor do que a maioria dos alvos que os criminosos encontram pelo caminho.
Perguntas frequentes
O que são falhas básicas de segurança digital?
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O que é autenticação multifator e por que ela é importante?
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Como saber se minhas senhas já foram vazadas?
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Se uma empresa que guarda meus dados for invadida, o que posso fazer?
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