Brasil registra 4 golpes digitais por minuto, aponta estudo
Escrito por Mariana Silva
AtualizadoO Brasil registrou 2.261.055 casos de estelionato em 2025, o equivalente a quatro golpes a cada minuto. É o que mostra a 20ª edição do Anuário Brasileiro de Segurança Pública, divulgada pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública em julho de 2026. Os números representam alta de 429% em relação a 2018, quando foram registradas 426 mil ocorrências, e consolidam o estelionato como o principal crime patrimonial do país.
Para David Carneiro, consultor legislativo da Câmara dos Deputados, o volume e o alcance das fraudes digitais tornam o tema uma prioridade que exige resposta coordenada entre governo, bancos, legislativo e sociedade.
O que o Anuário 2026 revela sobre golpes digitais no país?
Além do número de ocorrências, o impacto financeiro é expressivo. O Ministério da Justiça e Segurança Pública estima em cerca de R$ 50 bilhões o prejuízo acumulado nos últimos anos em função dos golpes digitais. "É um problema massivo da sociedade brasileira e que a gente precisa estar discutindo", afirma Carneiro.
A subnotificação é outro fator que amplia a dimensão real do problema. Uma pesquisa Datafolha encomendada pelo próprio Fórum aponta que 15,8% da população com 16 anos ou mais, o equivalente a 26,3 milhões de pessoas, declarou ter sido vítima de golpe ou ter perdido dinheiro na internet nos 12 meses anteriores. "Se os registros administrativos já demonstram um cenário preocupante, as pesquisas apontam que o problema é muito maior do que o que vira estatística nas delegacias", afirma o Fórum.
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Quais são os golpes mais comuns?
O crescimento dos casos acompanha a digitalização das transações financeiras. Com mais pessoas realizando pagamentos, transferências e compras pelo celular, o ambiente online se tornou o principal canal de atuação das quadrilhas especializadas em fraudes.
As falsas vendas online lideram os registros, seguidas pelos golpe do Pix e pelas falsas centrais de atendimento bancário. O WhatsApp é o canal mais usado: criminosos clonam contas, se passam por familiares ou fingem ser funcionários de bancos para induzir transferências. Nas redes sociais, proliferam anúncios com produtos inexistentes e perfis falsos que simulam lojas conhecidas.
O phishing por email e SMS, com mensagens que imitam bancos e órgãos públicos, e os links de pagamento falsos completam as modalidades mais recorrentes nos boletins de ocorrência.
Por que o combate ainda é insuficiente?
Os números de punição revelam a desproporção. Em 2025, com 2.261.055 casos registrados, apenas 63.771 ações penais foram instauradas e apenas 4.189 pessoas passaram pelo sistema penitenciário pelo crime de estelionato, ou seja, mais de 97% dos casos não chegam ao Judiciário. "Dar golpes no Brasil oferece riscos excepcionalmente baixos de punição", afirma o Fórum.
A migração do crime para o ambiente digital não foi acompanhada, nos estados, por um investimento equivalente na capacidade de investigação. "A gente não viu nos estados um aparelhamento pelo menos equivalente das polícias civis para a investigação desses crimes", observa Carneiro. O Anuário também aponta participação do crime organizado no setor, com facções operando centrais dedicadas a golpes em massa. Uma dessas estruturas foi desarticulada em São Paulo em janeiro de 2026.
No plano federal, o governo e os bancos assinaram um protocolo de ação conjunta, mas o Brasil ainda não conta com uma estratégia nacional coordenada. Países como os da Europa e a Austrália já adotam modelos integrados, com objetivos definidos, responsabilidades claras e cooperação entre órgãos de segurança, reguladores e setor privado.
O que pode mudar para proteger melhor a população?
Em maio de 2026, uma mudança legislativa relevante entrou em vigor: o Ministério Público passou a poder processar casos de estelionato sem precisar da representação da vítima, e quem cede conta bancária para movimentar valores de fraudes digitais passa a responder com pena de 4 a 8 anos. Para Carneiro, o caminho passa ainda por uma estratégia que combine investigação, regulação, fiscalização e educação para a cibersegurança.
Na prática, o letramento digital precisa alcançar todas as faixas etárias, porque as fraudes não escolhem perfil: atingem jovens e idosos em transações simples do cotidiano. Reconhecer os golpes mais comuns, desconfiar de urgências artificiais e verificar informações pelos canais oficiais continuam sendo as principais defesas disponíveis.
Em 2025, o Brasil teve 2 milhões registros de estelionato e apenas 4 mil presos pelo crime, o que significa que mais de 97% dos casos não resultam em punição. O monitoramento de dados pessoais é uma das formas de identificar uso indevido do CPF antes que os danos se agravem.

