Interpol detém 5 mil pessoas e apreende US$ 293 milhões em operação antifraude
Escrito por Mariana Silva
AtualizadoA Interpol divulgou em 9 de julho de 2026 os resultados da Operação First Light 2026, realizada entre 15 de janeiro e 30 de abril com a participação de forças policiais de 97 países. A ação coordenada resultou em 5.811 detenções, no bloqueio de 31.014 contas bancárias e na interceptação de USD 293 milhões em ativos ilícitos. No total, 142.000 vítimas foram identificadas em todo o mundo.
O foco da operação foi o que a Interpol classifica como engenharia social: técnicas que usam a confiança das pessoas para obter dinheiro ou informações confidenciais sem necessidade de invadir sistemas ou usar código malicioso. O alvo é o comportamento humano.
Entre os tipos de golpe mais comuns mapeados durante a operação estão o BEC (Business Email Compromise), fraude em que criminosos se passam por fornecedores ou executivos para redirecionar transferências corporativas, a sextorsão, as fraudes sentimentais (romance scams), a roubo de identidade e os golpes de falso investimento.
Para agir sobre os fluxos financeiros em tempo real, a operação utilizou o I-GRIP (Global Rapid Intervention of Payments), mecanismo da Interpol que permite bloquear transferências ilícitas tanto em moeda tradicional quanto em criptomoedas antes que os valores sejam movimentados. Ao todo, foram analisados 152.808 casos e encerrados 23.715 deles.
Casos que mostram a dimensão do problema
Em Eswatini, a polícia prendeu 82 pessoas e desmantelou uma rede que operava jogos de azar ilegais, lavagem de dinheiro e golpes sofisticados de roubo de identidade. Entre os itens apreendidos estava uma réplica realista de uma delegacia da Polícia Federal brasileira, completa com uniformes, sinalização e equipamentos falsos. Usando videochamadas, os criminosos se passavam por agentes federais para convencer vítimas de que eram alvo de um crime e precisavam transferir dinheiro "em segurança". Uma equipe de suporte operacional da Interpol foi deslocada ao país para análise forense dos 240 dispositivos eletrônicos apreendidos.
Na Tailândia, duas prisões levaram à descoberta de um esquema de lavagem proveniente de romance scams, com conversão dos valores em criptomoedas usando trocas entre diferentes tokens para ocultar o rastro financeiro. A carteira digital de um dos suspeitos, de 20 anos, havia processado mais de USD 122,5 milhões em apenas dez meses.
Em Singapura, o mecanismo I-GRIP foi acionado para bloquear uma transferência de USD 6,6 milhões em um caso de BEC: criminosos se passaram por um fornecedor para desviar recursos de uma empresa de comercialização de matérias-primas. Em Macau, durante uma ação comunitária de prevenção, a polícia descobriu que um dos participantes estava sendo manipulado em tempo real por uma organização criminosa que simulava conduzir uma investigação de fraude. A intervenção evitou que quase USD 372.000 fossem transferidos aos golpistas.
Os golpes mapeados pela Operação First Light 2026 não são exclusivos de outros países. Fraude de identidade, falsos agentes públicos e fraudes que simulam investigações policiais são modalidades ativas no Brasil. Se você receber um contato inesperado de alguém se identificando como autoridade, por telefone, e-mail ou videochamada, solicitando dados pessoais ou transferências, encerre o contato e procure o canal oficial do órgão diretamente.
O que esses números revelam?
Para Tomonobu Kaya, Diretor do Centro de Crime Financeiro e Anticorrupção da Interpol, os resultados confirmam uma mudança de escala: "Os golpes de engenharia social continuam a representar uma ameaça significativa para a nossa sociedade. Organizações criminosas utilizam a psicologia humana para manipular seus alvos, e nenhum país pode se manter seguro a menos que todos estejam equipados e comprometidos a combater juntos."
A identificação de 142.000 vítimas em uma única operação de quatro meses indica que fraudes baseadas em manipulação psicológica deixaram de ser casos isolados e passaram a funcionar como um setor estruturado do crime organizado transnacional com infraestrutura, divisão de tarefas e mecanismos de lavagem integrados à cadeia.

