Golpes bancários mais que dobram desde a popularização da IA
Escrito por Mariana Silva
AtualizadoOs casos de estelionato na Justiça de São Paulo mais que dobraram desde o fim de 2022, quando as plataformas de inteligência artificial generativa passaram a ser acessíveis ao público. É o que mostra um levantamento realizado pela plataforma Jusbrasil: as decisões do Tribunal de Justiça do Estado de São Paulo (TJ-SP) relacionadas ao tema saltaram de 1.073 para 2.270 em 2025, acompanhando o crescimento nos boletins de ocorrência envolvendo fraudes bancárias.
Quais golpes lideram os processos?
Das 8.338 decisões expedidas pelo TJ-SP em 2026 com estelionato como tema central, 3.621 foram originadas por meios eletrônicos e 931 de forma presencial. As 3.786 restantes não registraram se a fraude ocorreu online ou pessoalmente, o que dificulta uma análise mais precisa do cenário.
Entre os golpes identificados, as falsas vendas lideram com 416 casos. Nessa modalidade, compradores realizam pagamentos por produtos que nunca são entregues ou vendedores são induzidos a despachar mercadorias mediante comprovantes falsificados. As falsas centrais de atendimento bancário aparecem logo na sequência entre os esquemas mais recorrentes.
Quanto aos canais, o WhatsApp aparece em 1.300 menções nos processos analisados, seguido de internet banking (752), ligações telefônicas (405), sites falsos (270) e plataformas de e-commerce (146).
Como a IA está sendo usada nas fraudes?
A menção direta ao uso de inteligência artificial aparece em apenas 5 dos processos analisados, o que não reflete a escala real do problema. Para a Crowdstrike, empresa especializada em cibersegurança, o uso de IA em golpes cresceu 89% no mundo e está presente em cerca de 70% das ações criminosas.
Um caso ocorrido em Goiás ilustra esse avanço: após denúncia do C6 Bank, a Polícia Civil prendeu um homem que usou IA e documentos vazados para tentar acessar 259 contas bancárias em 709 tentativas. Nenhuma invasão foi concretizada graças ao sistema antifraude da instituição.
Outro fator que distorce os dados é o comportamento das vítimas. Segundo o delegado Alessandro Barreto, da Polícia Civil do Piauí, muitas pessoas priorizam ações judiciais contra os bancos para recuperar o dinheiro perdido e não chegam a registrar um boletim de ocorrência. "A pessoa consegue o ressarcimento e considera que resolveu o problema", afirma. O resultado prático é que apenas 2% dos casos de estelionato são solucionados pelas polícias brasileiras, segundo dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública.
O que fazer se você cair em um golpe bancário?
O primeiro passo é acionar imediatamente a instituição financeira e informar a transação suspeita. No caso de transferências via Pix, o Banco Central disponibiliza o Mecanismo Especial de Devolução (MED), que permite solicitar o estorno dos valores. Quanto mais rápido o acionamento, maiores as chances de recuperar o dinheiro.
Registrar o boletim de ocorrência com o máximo de detalhes também é fundamental: número de telefone ou email usado no golpe, dados bancários, chave Pix e capturas de tela de conversas. "A fraude é uma epidemia, e melhorar o registro e a confecção dos boletins são os primeiros passos para enfrentá-la", destaca o delegado Barreto.
Em maio de 2026, o governo federal sancionou uma lei que aumenta as penas para estelionato e furto mediante fraude praticados pela internet, reforçando o amparo legal para quem busca reparação na Justiça.
O WhatsApp é o canal mais usado em golpes bancários, com 1.300 menções nos processos do TJ-SP. Desconfie de contatos não solicitados, ofertas com urgência e solicitações de dados pessoais ou bancários por mensagem, independentemente de quem pareça ser o remetente.

